quarta-feira, 20 de maio de 2009

EU NA MASSA: CHURRASCO, CERVEJA E FUTEBOL.


(Para meu amigo Bira!)

Ontem por motivos profissionais estivem em Curitiba, passei o dia em conjecturas e projetos oriundos do meu ofício de publicitário, no almoço fomos a uma churrascaria, nossa como comemos carne. A noite, visitando um cliente, fomos convidados a jantar e depois ir ao estádio do Coritiba assistir ao Jogo: Coritiba x Ponte Preta, nenhum clássico do futebol brasileiro, mas esperado ansiosamente pelos carolas do time.

O Local do Jantar era uma churrascaria que fica anexa ao estádio, comemos mais carne e tomamos muita cerveja, ouvíamos la de fora o grito enfurecido e animado dos torcedores do “Coxa”, a multidão aguardava freneticamente a abertura dos portões.

Eu nunca fui dado a estádios de futebol, nem a torcida, na verdade foi a primeira vez que entrei num estádio para assistir um jogo assim.

Quando entramos, eu vi uma arena romana, cercada de um povo cedendo por pão e circo, e lá no meio, leões famintos e gladiadores sedentos de sangue fresco. Eu estava no camarote do estádio, sentado ao lado do próprio imperador, o presidente do Coxa.

Como nas arenas, o Leão era o anfitrião, os gladiadores eram os visitantes, então se podia ver 20 mil pessoas torcendo e urrando com raiva na expectativa de ver o leão devorar sem piedade os gladiadores. Essa massa humana raivosa, gritava, cantava e pulava num ritual de ódio muito intenso.

Sabemos que nenhuma energia se perde, aquela energia gerada no estádio acaba indo para algum lugar, fiquei os 90 minutos do jogo olhando a torcida, fiel e muito organizada, gritando e xingando com ódio os adversários. Para onde vai toda essa energia violenta do estádio? Esse ódio por um adversário que na verdade não existe se dá por conta de que?

Acabou o primeiro tempo sem gol, leão e gladiador inteiros, e no camarote do imperador muita cerveja, e eu sentia o peso da costela do jantar. Quando voltaram, a torcida empurrava o time com mais ódio e com mais violência, até que lá pelas tantas alguém diz:

_O Fulano de Tal foi preso, liga pro advogado do clube para tirar o cara da cadeia.
_Mas o que aconteceu, foi preso por quê?
_Estava armado, sem porte, do lado de fora do estádio, alguém tem que ir lá soltar o cara.

Era o presidente da torcida organizada, foi preso armando uma tocaia para pegar a minguada torcida adversária caso o Coxa perdesse o jogo e fosse desclassificado. Neste momento eu entendi para onde vai toda essa energia.

A violência diária que vemos nas ruas, nas mãos de traficantes e de bandidos, a violência diária que somos expostos diariamente pela TV e a violência que sofremos vindo das mão de maus políticos, aí nessa violência se acumula esta energia. Nas crianças de rua, nos mendigos, nas filas de hospitais, no anseio de milhares de desempregados, nos jovens mortos pelo craque, na pancada diária que recebemos, essa energia de ódio se acumula aí e se espalha, pois como toda a energia gerada no universo, nunca se perde nem se desfaz.

Faltando três minutos para o fim do jogo, o Leão comeu o Gladiador, o “Coxa” marcou um gol, tomamos mais cerveja, gritamos muito (Sim eu gritei também, a energia era grande de mais e é impossível ficar de fora). Logo em seguida voltei para Joinville, acompanhei a saída da massa de torcedores felizes por terem visto o leão devorar o gladiador, vi uma multidão consada e rouca de tanto gritar e torcer.

No caminho pude ver nos mendigos e nas crianças de rua espalhadas pelo frio de Curitiba o resultado do jogo.

7 comentários:

Jura Arruda disse...

Caramba, Robson, você quase me fez desistir de ser torcedor. Mas resistirei à sua teoria. hahahaha.
Sabe? Acho que a voracidade da torcida é efeito e não causa. O grito de ódio externa uma série de frustrações para que a catarse libere o estômago pra tomar mais porrada. O ser humano é assim desde antes das antigas arenas, inclusive você e eu. Abração e parabéns pelo tema. Vale uma peça de teatro. Pense nisso.

ArqueiroZen disse...

Como muitos sabem, meu pai foi jogador de futebol profissional e os mais 'antigos' que viram jogar este quem escreve, como zagueiro e cabeça de área, podem atestar não só uma razoável competência na bola, quanto uma vontade 'fominha' pela mesma. Paixão é fogo mesmo! E para compor ainda melhor o quadro, para quem viu meus filhos jogarem, visualizou uma 'genética' forte de boleiros. O filho mais velho 'bate um bolão', o filho do meio mesmo, se quisesse, possivelmente estaria num 'grande clube (sic)' e a caçula saiu da ginástica rítmica para dar uns chutes no futebol feminino. Mas a vida é feita de vários primeiros e segundos tempos. E com alguns intervalos entre eles. Catarses à parte - hoje o psicologismo já deveria ser até ciência estabelecida -, na arena simbólica em que vivemos, junto com os leões que temos que enfrentar diariamente como bons cristãos (metáfora, gente!), percebemos também que o imperador já não impera tanto assim. Aliás, a existência desse outro poder que se faz por trás dos imperadores me faz lembrar que meu saudoso pai, ao parar com o futebol profissional (mesmo ainda jogando em times amadores), nunca mais entrou num estádio de futebol. Figura conhecida e respeitada no meio futebolístico, cheguei a presenciar em várias oportunidades ele ser questionado por aquela atitude, ao qual sempre respondia com algo como: 'hoje em dia, já não se tem mais amor à camisa, apenas ao dinheiro...'. Existe arte, existe poesia em qualquer expressão humana e para quem lembra do futebol-cinema do 'canal 100' (também vale pesquisa no youtube, embora assistir aquelas imagens na telona...) pode atestar o balé, a dança, a elegância, a virtuose de um 'jogo' de futebol. Ali podemos ver que o belo se faz naquele intrincado de pernas, de braços, de corpos que se entrelaçam e se desvencilham de adversários e indo mais além, pelos pés e mãos de um sem-número de virtuosos podemos ainda ver as molecagens de adultos que teimam em manter o lúdico não só vivo, como presente em cada drible, em cada firula, em cada sorriso e em cada lágrima. Um dos momentos-síntese da boa e bela 'malandragem' tupiniquim. Mas hoje, apesar de todos os esforços dos abnegados da bola, daqueles que trabalham diretamente com crianças e jovens nas categorias de base, e que buscam formar não só o jogador, mas o cidadão sensível e responsável às coisas do mundo, me sinto curvado à sabedoria daquele velho craque, como que dizendo: 'todas as coisas passam, as boas e as ruins, mas para as boas, vale a pena procurar reinventá-las'. Não tenho mais time de paixão, não torço mais pelo futebol, mas uma vez ou outra ainda arrisco assistir àquele que já foi chamado 'o espetáculo da bola'. Dizem que as paixões passam e o que perdura é o Amor...
Laércio Lálas Amaral

ArqueiroZen disse...

Uma dúvida: comentários devem ser 'curtinhos'? Se sim... desculpa aí! Laércio Lálas Amaral

Robson disse...

Grande Arqueiro....
Não tem problema em fazer comentários grandes... hehehe.
Concordo com absolutamente tudo o que vc disse, por isso mesmo não me refiro no texto ao jogo ou aos jogadores e sim a torcida de aos cartolas donos da grana. Eu própriprio dou os meus xutes, bem piores que os teus eu confesso.

Letárgica Morfética disse...

Bira Baeta
Valeu pela homenagem, cumpade! Com 8 ou 9 anos fui pela primeira vez ao Maracanâ com meu pai. Nossaaaaa! A sensação de ser tão pequeno me invade quando escrevo isso. Não lembro muito do jogo, mas sinto bem o que foi a coisa. Todo aquele universo, "pai, me ajuda a olhar..." Se o bem e o mal existem, você pode escolher, é preciso saber viver... simples assim não é não, mas também não enrosque a vida, por favor!! O entorno do que vejo, ao redor do meu umbigo, vejo mendigos que passam fome e frio pra cacete em Curitibas, qualque uma,numa arena qualquer, dentro ou fora do espetáculo, porque ninguém está dentro, porque ninguém está fora. Gladiadores, leões, imperadores, povo, todos dentro do próprio caldeirão, tomando chope e comendo carne, uns com muito sempre, outros com muito às vezes, outros com nada sempre, ou nada às vezes, e tudo (e nada). A bola? O jogo? Diz a história que os chineses chutavam a cabeça do adversário,rolava de pé em pé pela rua, depois de vencerem a batalha, soldados e povo, era uma festa. Dentro de uma civilidade, saiu das ruas e virou evento de arena,antes de graça (a turma já pagava o imposto ao impostor)depois com ingresso, depois a bola feita de tripa de carneiro (comemos a carne dele e aproveitamos a tripa para fazer a bola- primeiro exemplo de reciclagem), afinal, alguém tem que pagar o pato.Há! Aquela energia ruim lá? O Chico Buarque pelo Fluminense, Ariano Suassuna pelo Sport Recife, eu pelo Flamengo e você pelo Ibirama,e tantos mais porque a paz e o amor vão vencer, batemos um bolão nesse negócio de viva e deixe viver.Dinheiro é ruim mas paga o ingresso, o chope e a carne, seja do leão, seja do gladiador, do imperador. E dinheiro tá custando "a hora da morte". O Chico Buarque tem um time chamado Politeama e eles se reúnem no sítio dele para jogar. Meu sonho de consumo é reunir minha galera e ir lá, dar uma surra neles. Sentiu a maldade? Um beijo, amigo.

Johnny Berry disse...

o bem amargo tem andado um tanto doce ultimamente....
por que????

Robson disse...

Grande Bira.. entendo as paixões... ehehe ... e são elas as responsáveis pela maioria de nossoas fracassos...

Jonny... as coisas andam agitadas... mas logo iremos por mais lenha nessa fogueira aqui.

abreijos

Ş