quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Pelados na Coletiva

O ator Luciano Fusinato me enviou esse texto, e estou postando aqui com sua prévia autorização.

SEM TÍTULO. TÉCNICA MISTA.
Sobre uma performance teatral realizada na exposição da Coletiva de Artistas Plásticos de Joinville - 2009


Estive na abertura da 38° Coletiva. Junto com outro amigo. Muitos disseram que nossa PRESENÇA (função primordial de atores) era protesto. Outros disseram que ela foi de mau gosto e agressiva. Outros ainda perguntaram-se “ingênuos”: pra que serve a arte?
Vejamos.
Ao que protestar? Decididamente não temos contra o quê. Ou, se qualquer cidadão, qualquer pessoa fosse protestar contra o que ela vê de errado, talvez a lista de protestos fosse por demais extensa. Temos antes uma espécie de consciência que nos indica que colhemos o que plantamos, ou seja, que a toda ação humana corresponde uma conseqüência. Assim deve-se ter uma noção clara acerca dos efeitos de nossas ações, sejam individuais ou coletivas. Inúmeras vezes protestos não são ações humanas verdadeiras, porém toda ação humana verdadeira deixará claro seu testemunho.
Gostar e não gostar são critérios humanos de valor, elementares na vida enquanto estamos infantilizados. Se avançarmos um pouco na consciência haverão muitos outros critérios para análise. Quanto à agressão contra crianças e adultos, talvez pudéssemos nos dedicar um pouco mais a observar o conteúdo ensinado diária e sistematicamente na televisão e nas escolas brasileiras... quiçá elas tenham uma dose de ‘sentido’ e talvez até de ‘agressividade’ mais urgentes de serem tratadas do que apenas uma dose dupla de atores artistas. Reflitamos sobre o conteúdo de violência e agressão a que são submetidas nossas crianças sem que nem ao menos tenhamos a dimensão disso no dia-a-dia, como as mensagens que elas sofrem no sentido de forçar os pais a consumirem. Enfim, lamento que nos dias de hoje (SÉCULO XXI!!!) a nudez seja mantida como tabu e nossas crianças proibidas por intimidação a verem com naturalidade a presença de um ser humano nu. Esse proceder me recorda aquele velho olhar branco sobre os índios: povo quase gente que não tem vergonha. Onde estaria, será, a pureza que deveríamos buscar para tornar o mundo um lugar um pouco melhor para a convivência?
Realmente não há uma única resposta acerca da utilidade da arte, aliás, a arte não tem “utilidade”! Seria bom exercitar o conhecimento até o ponto em que minimizemos a cilada mental que separa retóricas abstratas de hipocrisias ou ignorâncias. Só que pode vir a ser uma experiência esmagadora na prática do cotidiano, porque VER é sempre aterrador.
Frequentemente me pergunto qual é o grau da minha ignorância, como exercício diário para não julgar. E julgar é diferente de analisar! Enquanto isso trabalho como artista e assim relato como vi a 38° Coletiva: uma sala de um branco hospitalar expondo imagens de interferências urbanas, ora tímidas e outrora ingênuas; uma incômoda caixa de som sobreposta ao texto escrito na entrada; e ao centro das fotografias das chamadas “obras de arte” outra “obra”, uma mesa com comida! Tudo iluminado por lâmpadas de fluorescente branco. A referência simbólica disso é assustadora. Ora, a alimentação contemporânea é uma das maiores referências ao sem número de patologias que nos afetam, tanto física quanto emocionalmente.
O escritor José Saramago nos indica com sua ampla e madura poesia que apesar de dispormos de uma condição humana aparentemente melhor do que em tempos idos, ainda assim poderemos estar envoltos por um “mal branco” que reforça o que já conhecemos, que pareça muito interessante e que vele hipocritamente nossa miserável compreensão já em estado putrefato. Se aquele escritor indica isso com sublime maestria, nós então poderíamos avaliar que as obras que PROVOCAM POUCO os espectadores, cumprem nessa EXATA MEDIDA sua “função artística”. Talvez estejamos acostumados demasiadamente ao “conceitual”. Se a arte não é, por si mesma, provocativa, ela dispõe-se a cumprir outras funções, por exemplo a de mercado financeiro ou de manipulação mental.
SEM TÍTULO porque não há categoria possível para designar de maneira razoável o modo como nascemos. Se fôssemos obras de arte, o seríamos em eterna transformação.
TÉCNICA MISTA porque, como Borges de Garuva bem me apontou pessoalmente na ocasião, há milênios que nossos organismos vêm misturando técnicas muito diversificadas.
Me senti assim como um bonobo. Estranho observador de medianidades comprometidas e, conseqüentemente, doentias e nem tanto impecavelmente organizadas.
Se há pobreza e cegueira branca e se nós as CONVIVEMOS, preferi partilhá-las nu, sem título e com técnica mista.



Luciano Fusinato é ator e diretor teatral.
Joinville, janeiro de 2009.

(Foto: Arquivo Pessoal)

3 comentários:

Jura Arruda disse...

Concordo com o Luciano quando ele cita a hipocrisia de expor-se às obscenidades diárias das TVs enquanto se repudia a nudez performática numa exposição de arte contemporânea. No entanto, como a arte se propõem provocativa, é preciso que os artistas recebam com serenidade o juízo simplista ou ignorante (no sentido apenas de não saber)do público e seus filtros.

Por fim, se há provocação, permita-se o debate. Parabéns aos atores pela iniciativa, pela coragem e por propor esse "debarte". Beijabraços.

Adriano Leal disse...

Acrescento-me ao lúcido comentário do Jura.
Tal aparição, merece comentário, gera intriga e desordem, é pra isso afinal que a arte serve não é?
Pois que venham mais, que em próxima oportunidade, casais com filhos de personagens nús façam suas performances para "causar" (palavra da moda), ainda mais.
Quem sabe criando dessa, uma série de iguais aparições causadoras, a sociedade mude para melhor!

cesar augusto pereira disse...

Ok,
Bonitas as palavras dos artistas mas, infelizmente não somos índios.
E sendo assim, o nu, artístico ou não, não faz parte da nossa cultura diária.
A TV, pode mostrar tudo, mas quem tem o controle remoto sou eu. Meus filhos gostam de TV, gostam de informação, mas não veem big brother, não veem novelas, e nem a Xuxa. Nós escolhemos juntos o que vamos ver.
Assim como escolhemos quando vamos a museus, parques, teatro, cinema e quando prestigiamos o maior numero possível dos trabalhos dos artistas da cidade. Compramos os seus livros, os seus Cds...
Só gostaríamos de ter a opção, sempre, de este queremos ver, este não, como na televisão.
Voltaríamos outra dia para ver a coletiva dos artistas. Era só ter um aviso do que ia acontecer naquela noite, a proposta dos atores foi valida, só queríamos escolher, ver ou não. (quem sabe um pequeno aviso na porta, "não recomendado para menores de ...", não precisava nem dizer o que era, para não estragar a surpresa).
Porque foi uma surpresa, e rápida, quando a minha filha pediu para ir embora, a nossa opção de escolha já tinha sido invadida.
Cesar

Ş